O GRANDE GUIA DE PERRENGUES (1)

Eles estão lá, esperando para aparecer nos momentos mais oportunos, quando estamos sem longe de casa, longe de oficinas mecânicas ou postos de gasolina, sem sequer uma luz reserva, ou aquela tal ferramenta. Implacáveis, os perrengues vez ou outra vão acontecer. Não gosto muito  de ficar relatando problemas ou experiências ruins nos posts, como vejo em muito blogs por aí. Nada contra, mas  acho que isso desestimula a leitura (e ainda mais a vontade de viajar). O objetivo do Revolteio é exatamente o contrário. É importante relatar o que houve de positivo e negativo na viagem, mas sempre tirar algum proveito disso.

Então criei esse post sobre perrengues, e o mais importante, como prevenir, resolver, ou no mínimo tirar algum aprendizado da situação. Tentei compilar todos os perrengues que passei nas viagens e como resolvemos (ou não, rs). Assim, espero estar ajudando que for viajar a não passar pelos mesmos problemas.

1. FALTA DE COMBUSTÍVEL

É um problema bem óbvio de se resolver. Mas na prática, a gente às vezes não mantém o tanque com um nível seguro, por pura distração ou na esperança de encontrar um posto mais adiante ou mais barato. Logo que comprei a Montana, em 2013, confiei demais no marcador de e acabou o combustível com autonomia para 30km. A sorte é que estávamos em Bauru mesmo, e a poucas quadras de um posto. Tive que achar uma garrafa PET na rua, implorar pro frentista encher, enfim, um pequeno transtorno.

Principalmente em lugares com menos cidades, como Mato Grosso, Argentina, Bolívia, há estradas que passam facilmente de 200km sem sequer um posto de combustível. Então, mantenha o tanque com mais da metade da capacidade. Aconteceu uma vez também perto de Brotas-SP. O tanque já estava na reserva e vi um posto, do outro lado da pista. Sei que é errado, mas tive que parar no acostamento, atravessar as pistas a pé e comprar o maldito Tanque do INMETRO (que é de plástico, exatamente igual a um galãozinho de produtos de limpeza, mas com a marquinha do INMETRO) e custou R$12 (vazio), aí uma garrafinha cortada serviu de funil, e tudo certo. Na Bolívia também passamos por alguns perrengues desse. Alguns postos de lá não vendem combustível para estrangeiros.

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OBS1: Não é permitido carregar combustível nem tanques, galões ou garrafas no interior do carro. evite problemas com a polícia.

OBS2: Na Argentina e Chile, há mais tipos de gasolinas nos postos, com octanagens diferentes das nossas. Pesquise ante de ir e sempre pergunte ao frentista qual é o tipo mais adequado para o seu veículo!

2. PNEU FURADO/RASGADO/AMASSADO

No asfalto, é inevitável. Mas em estradas de terra ou asfalto esburacado, andar devagar ajuda a evitar esses problemas. Também ter sempre o estepe nos conformes e manter ele calibrado. Aconteceu conosco em Bauru algumas vezes, também em Prudentópolis-PR (2012), no Chile (2013), em uma estrada de terra bem longe da cidade. Nesse caso tivemos que comprar outro, pois o pneu rasgou. Dormimos no carro, no estacionamento de um mercado e no dia seguinte compramos um pneuzinho chinês.

A última que me lembro foi no Chile (2016), foi mais tenso. A roda entortou com a pancada em uma pedra e o ar saiu junto com a calota (rs). Aí depois de desentortar, conseguimos encher e seguir viagem. Fica a dica: Para Bolívia, Argentina, Chile, e viagens bem longas com muita estrada de terra, aconselho levar dois estepes.

OBS 1: Na Argentina e Bolívia a maioria dos postos de combustível não tem bombas de ar para encher pneu (e quando tem, não é digital, como estamos acostumados). Procurem por borracharias (nos países de língua espanhola, borracharia pode ser “gomeria”, “llanteria”, “vulcanización”, ou “servicio de aire”) Os pneus são os “neumáticos” e a roda é a “llanta”. Então, fica a dica !

OBS 2: Achei que não fosse tão importante, mas o rodízio de pneus faz uma baita diferença. Em 2015, na cidade de Carrancas-MG tivemos que pegar uma subida absurda em uma estrada de terra, e a Montana patinou muito até conseguir subir. À noite, eu mesmo fiz o rodízio dos pneus, e no dia seguinte percebi a diferença !

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Trocando pneu no Chile

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Roda toda amassada (lado direito)

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Subida em Carrancas-MG (sofrido)

3. ESTRADAS RUINS (BARRO/AREIA/BURACOS/PEDRAS/PONTES)

Já pegamos muitas estradas de asfalto e terra nessas situações, mas talvez por sorte ou um pouco de experiência, nunca tivemos muito problema por conta dessas situações. Vou tentar falar um pouco de cada uma, e o que fiz para resolver. Talvez não seja o jeito mais indicado, mas se comigo funcionou, talvez funcione com você também, rs.

BARRO: Já passamos por muita estrada de terra com barro, inclusive à noite, com chuva, na montanha… O que costumo fazer é evitar ir muito devagar. Ao passar por atoleiros, tento embalar o carro para ele não parar. Só quando chega em algum lugar com muita água (rio, poça, etc). Aí costumo descer e averiguar a profundidade, mas afirmo com segurança que já passei com o Uno e com a Montana e lugares com mais de 40cm de água e não tive problemas. Só tenha cuidado em estradas com barro muito escorregadio para a traseira do carro não “dançar”. Se o carro atolar, ponha mais peso ou peça para alguém sentar no capô do carro (se a tração for (dianteira), assim o contato da roda com o solo será maior.

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Muito barro em Nobres-MT

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Atravessando os Andes por estrada de terra

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Passando por um rio no Mato Grosso

AREIA: A regra é mais ou menos a mesma. Evite parar ou ir muito devagar. Se tiver que parar o carro, ao sair vá com calma (saia devagar) e com as rodas retas (sem estar com o volante virado). Caso o carro comece a afundar na areia, não coloque peso sobre o eixo de tração (isso fará o carro afundar ainda mais), e NÃO acelere como louco, pois seu carro irá afundar cada vez mais. Várias vezes vimos carros afundados até o eixo na areia por conta do desespero do motorista em acelerar. Se o carro começar a afundar, pare, tente retirar o máximo da areia que estiver ao redor das rodas, tente encontrar tábuas, madeiras, ou até o tapete do carro para colocar sob as rodas. Tente tirar o peso do carro (peça para seus amigos descerem e ajudarem a empurrar). Aí sim tente acelerar (devagar), para frente ou de ré, e boa sorte !

OBS: Ao passar por alguma praia, dunas ou local de areia fofa, o ideal é murchar bem os pneus (para aumentar o contato com o solo), e se necessário verificar os horários da maré (para não ser pego de surpresa. E se possível ande pela areia úmida, que há menos risco do carro afundar.

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Golzinho enterrado na areia

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E o mar chegando…

BURACOS: Não pegamos tantas estradas ruins fora do estado de São Paulo como pensam por aí. Aliás, muitas estradas boas, e sem pedágios. Que me lembro de estrada ruim mesmo, uma perto de Rondonópolis-MT e uma perto da Chapada da Diamantina, em Barra da Estiva-BA. Os cuidados são simples, é prestar atenção e ir devagar. perto de Uyuni, na Bolívia, passei em um grande buraco e amassei o protetor de cárter de tal forma que começou a pegar na cremalheira da embreagem. Cuidado !

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Estrada esburacada perto de Rondonópolis-MT

PEDRAS: Cuidado com pedras, porque acabam com o carro. Na Chapada Diamantina, em Igatu-BA, uma cidade toda de pedra, com as ruas bem desniveladas. A cidade é linda, mas horrível para andar de carro. na entrada, passei por uma pedra que amassou um monte de coisas embaixo do carro. Deu um trabalhão pra sair de cima da pedra. O mesmo vale para São Thomé das Letras-MG e as cidades históricas, como Tiradentes, Ouro Preto, Mariana, Congonhas, etc.

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Igatu-BA

PONTES: Cuidado ao atravessá-las, especialmente se estiver à noite ou a ponte estiver em condições duvidosas. Várias vezes tivemos que parar o carro e analisar a situação. Também houve vezes de nós mesmos termos que acertar algumas madeiras na ponte para passar com o carro. Cuidado. Se necessário, peça ajuda a outra pessoa para ir orientando o motorista de fora do carro.

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Nobres-MT

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Em algum lugar do Rio Grande do Sul

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Andrelândia-MG

4. POLÍCIA

Sim, eles deveriam estar trabalhando para proteger e orientar os motorista, mas, sabemos que alguns não estão lá pra isso. Aqui no Brasil, pelo menos até agora, todos nos respeitaram. Na Argentina, em 2012, fomos parados em todos os postos de guarda, mas em um deles, os policiais nos fizeram “comprar” dois livrinhos, um de CFC, e outro com mapas da Argentina. Tentamos recusar, mas forçaram a barra e acabamos deixando o equivalente a R$40 com eles. Em março desse ano, passamos por vários problemas com policiais. Na Argentina não, mas no Paraguai tivemos que deixar R$50 por causa do farol apagado. Já na Bolívia, o tempo todo éramos parados nos postos de guarda e tínhamos que pagar R$10 ou R$15, por causa de algum documento, autorização, taxa, enfim… Foram nos roubando aos poucos.

O que costumamos fazer (não funcionou na Bolívia, mas em 2012 na Argentina deu certo) quando a polícia pede dinheiro, dizemos que só estamos com cartão, ou pedimos para eles nos darem um boleto que pagamos a “multa” na próxima cidade (como eles querem o dinheiro para eles, não fazem o boleto e deixam passar). E quando perguntam para onde vamos, dizemos que estamos indo para alguma cidade próxima (para não pensarem que estamos com dinheiro). Também vale lembrar: Não deixe dinheiro (nem mesmo moedas) no painel ou em lugares que eles vejam, e andem sempre com tudo direitinho (documentos, cinto de segurança, farol aceso, etc.) para não acharem desculpas para eventuais “multas”

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Cuidado !

5. DORMIR NO CARRO

Em uma viagem de carro de longa duração (20 ou mais dias), pode ser que vez ou outra você tenha que dormir no carro. Na carroceria da Montana não está mais tão desconfortável, mas há uns anos atrás, tivemos que dormir algumas vezes dentro do Uno. É ruim, mas a gente sobreviveu. O que posso dizer sobre isso? Bom, procure um lugar com pouco movimento (mas não ermo, por favor!), como próximo à rodoviária de uma cidade pequena (a vantagem é ter um banheiro por perto), ou um posto de gasolina 24h, de preferência onde haja caminhões estacionados. Normalmente é seguro. Também dormimos no carro próximo a um posto de guarda (também é seguro), e em um estacionamento de hotel e mercado. O calor, a claridade e o barulho vão incomodar bastante. Coloque toalha nas janelas, ajudará um pouco. Na foto abaixo, dormimos na caçamba da Montana em um posto de combustível em Jaciara-MT.

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Olha a minha alegria tomando café da manhã, rs…

6. DINHEIRO

Sempre que saímos de viagem, tentamos “programar” pelo menos um pouco a quantidade de dinheiro que vamos gastar por dia, e quando fomos para outros países, levamos uma quantia mais ou menos certa para cada país. Até agora funcionou muito bem, ou seja, sempre sobrou dinheiro das viagens. É claro que não ficamos trazendo lembrancinhas, presentes, não comemos em restaurantes caros nem nos hospedamos em hotéis, visto que o foco das nossas viagens não é conforto. Enfim, mas passamos um bom perrengue em 2013 com dinheiro (falta de), quando estávamos ainda na Argentina. Nossos pesos argentinos haviam acabado (dormimos uma noite no carro, em um posto de gasolina de uma cidadezinha chamada Esquina), esperando para trocar uma nota de 50 dólares no banco (levamos um pouco de dólares por segurança). Ao chegar no banco, o atendente disse que não era possível trocar, pois a nota já era muito antiga. Resultado: com o combustível já quase no final, tivemos que entrar no Brasil por Uruguaiana (bem antes do que esperávamos).

Outro pequeno perrengue que passamos por falta de dinheiro foi na primeira vez em que fomos para a Ilha do Cardoso. Ao chegar em Cananéia, perguntamos para um senhor “se tinha caixa eletrônico na ilha” (me referindo à Ilha do Cardoso), e ele respondeu “sim” (se referindo a Cananéia, que também é uma ilha, mas como chegamos até lá de carro, nem percebemos isso). Então fomos para lá esperando que na Ilha do Cardoso pudéssemos sacar dinheiro (coitados, lá não tinha nem energia elétrica, rs…). Nossa sorte foi que havíamos levado um monte de moedas do nosso cofrinho para lá, pois ficamos com medo de deixar no carro, que ficou em Cananéia. Essas moedas salvaram nossa vida!

 7. TEMPO RUIM

O maior problema do tempo ruim é quando se está acampado. Esse perrengue já passamos muitas e muitas vezes. Mas com o tempo, vamos aprendendo algumas manhas. Que eu me lembre, o primeiro perrengue que tivemos desse tipo foi em Tibagi-PR, em 2010, no camping da Dora. O camping fica no vale do Canyon Guartelá, e pra piorar, era julho. Estávamos só nós no camping (literalmente), e nossa barraca era uma daquelas compradas em supermercado, a pior possível. Nosso saco de dormir também era bem fraquinho. Acho que nunca tínhamos passado tanto frio. E não tinha sopa quente ou vinho que esquentasse. E ainda pra piorar, amanheceu chovendo (e gotejando dentro da barraca, lógico. Viemos embora na mesma manhã ! Dica: Barraca, saco de dormir e isolante térmico bons não são luxo, rs… Fazem toda a diferença!

Mais um perrengue desses foi em Analândia (2010). Na verdade, pra gente não foi tanto problema, pois já estávamos com a nossa barraca Manaslu (muito boa!), mas a maioria das barracas do camping quase saiu voando, rsrs… A ventania e a chuva foram absurdas. esse dia testamos de verdade nossa nova barraca, e foi aprovada ! Dicas: Sempre prenda sua barraca em todos os pontos possíveis, mesmo que o tempo esteja bom. Se ela não for muito impermeável, vale a pena estender um encerado ou lona (bem esticado e inclinado, para não empoçar água). E nada e colocar lona sob a barraca ou cavar buraco em volta.

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As barracas mal montadas sofrendo com o vento

Dois anos depois, em Bueno Brandão-MG, só não passamos frio porquê conseguimos uma chácara em construção “emprestada” para dormir. naquela noite fez -2° !

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Manhã gelada em Bueno Brandão-MG

OBS: Evite usar colchão inflável em lugares frios, principalmente se não estiver um bom isolante térmico sob ele. O frio que sobe do chão vai deixar ele extremamente gelado. Já vimos muita gente sofrer com isso! Fica mais uma dica: Se não conseguir fincar os espeques (ferrinhos) no chão, não bata com martelo nem pise neles (provavelmente vai amassá-los). Ao invés disso, amarre os pontos de ancoragem em pedras, como na foto abaixo:

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Nos Andes, a barraca tem que estar muito bem fixada para não voar

Ah, sim, e agora em 2016 foi quando passamos mais frio na vida. No Deserto do Atacama, indo para os Gêiseres del Tatio, pegamos -8º ! E estávamos sem luvas… Parece uma coisa boba, mas nessa temperatura parece que a mão vai cair, rsrsrs.

CONTINUA EM “O GRANDE GUIA DE PERRENGUES PARTE 2”

 

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